O sexo como cura no séc. XVI

Há algum tempo encontrei este texto de medicina do século XVI, que para além de ser interessante é muito cómico...
"Cura XLVII
De um indivíduo que, estando atormentado de disenteria, cometeu coito com mulher e ficou são
Curámos muitos doentes atacados de disenteria epidémica e, entre eles, um alveitar (mulo médicus) ou veterinário.
Como a disenteria o oprimisse fortemente encaminhou-se de noite para uma mulher sua vizinha, de pénis erecto, e teve com ela agradável himeneu, cessando logo as dejecções, como me contou depois, ao visitar-me pela manhã. Ficou de boa saúde.
Comentários
Disse Hipócrates nas últimas páginas do livro "De Morbis vulgaribus" que a disenteria se cura com a vida lasciva. A frequência dos prostíbulos é, como ele diz, uma torpe licenciosidade, de que o cínico Diógenes usou quando esperava a meretriz. Como tivesse chegado tarde junto dele que a esperava, apresentou-se-lhe vergonhosamente e contra o preceito de Deus. A mão antecipara-seà celebração da cópula. Havia lançado o sémen ao chão com levar a mão às partes pudendas. Acerca da continência e constância deste homem leia-se Galeno, no seu livro 6º "De locis afectis", capítulo IV. De facto, este como aquele é digno de censura neste assunto. "
Sobre o autor...
Amato Lusitano(1511-1568), judeu, natural de Castelo Branco, estudou medicina em Salamanca e regressou ao nosso país em 1529. a perseguição aos judeus obrigaram-no a sair do nosso país, tendo vivido na Antuérpia , Ferrara, Ancona, Veneza, Florença, Roma (onde tratou o Papa) e Salónica, entre outras.
Foi um dos primeiros médicos a comentar Dioscórides, tendo ousado criticar a obra dos autores clássicos e contemporâneos, o que se reveste do maior interesse.
A sua principal obra são as "Centúrias", dividida em sete partes e publicada no século XVI por toda a Europa.
Importa salientar que nesta altura a medicina não era uma ciência, mas sim uma doutrina de carácter especulativo, misturando-se frequentemente uma vertente mágico-religiosa (embora seja importante denotar que em escassos momentos da sua história a medicina possuiu investigação de carácter experimental como sucedeu na Escola de Alexandria). A medicina só se tornaria uma verdadeira ciência no século XIX...
Fontes bibliográficas:
- Amato Lusitano, Centúrias de curas medicinais, vol.2, Lisboa, Universidade Nova de Lisboa/ Faculdade de Ciências Médicas, p. 102.
- Pita, João Rui, História da Farmácia, Coimbra, Minerva, , 2000, 2ª ed., p.128.





