Tuesday, March 21, 2006

O sexo como cura no séc. XVI



Há algum tempo encontrei este texto de medicina do século XVI, que para além de ser interessante é muito cómico...

"Cura XLVII

De um indivíduo que, estando atormentado de disenteria, cometeu coito com mulher e ficou são

Curámos muitos doentes atacados de disenteria epidémica e, entre eles, um alveitar (mulo médicus) ou veterinário.
Como a disenteria o oprimisse fortemente encaminhou-se de noite para uma mulher sua vizinha, de pénis erecto, e teve com ela agradável himeneu, cessando logo as dejecções, como me contou depois, ao visitar-me pela manhã. Ficou de boa saúde.

Comentários
Disse Hipócrates nas últimas páginas do livro "De Morbis vulgaribus" que a disenteria se cura com a vida lasciva. A frequência dos prostíbulos é, como ele diz, uma torpe licenciosidade, de que o cínico Diógenes usou quando esperava a meretriz. Como tivesse chegado tarde junto dele que a esperava, apresentou-se-lhe vergonhosamente e contra o preceito de Deus. A mão antecipara-seà celebração da cópula. Havia lançado o sémen ao chão com levar a mão às partes pudendas. Acerca da continência e constância deste homem leia-se Galeno, no seu livro 6º "De locis afectis", capítulo IV. De facto, este como aquele é digno de censura neste assunto. "


Sobre o autor...
Amato Lusitano(1511-1568), judeu, natural de Castelo Branco, estudou medicina em Salamanca e regressou ao nosso país em 1529. a perseguição aos judeus obrigaram-no a sair do nosso país, tendo vivido na Antuérpia , Ferrara, Ancona, Veneza, Florença, Roma (onde tratou o Papa) e Salónica, entre outras.
Foi um dos primeiros médicos a comentar
Dioscórides, tendo ousado criticar a obra dos autores clássicos e contemporâneos, o que se reveste do maior interesse.
A sua principal obra são as "Centúrias", dividida em sete partes e publicada no século XVI por toda a Europa.
Importa salientar que nesta altura a medicina não era uma ciência, mas sim uma doutrina de carácter especulativo, misturando-se frequentemente uma vertente mágico-religiosa (embora seja importante denotar que em escassos momentos da sua história a medicina possuiu investigação de carácter experimental como sucedeu na
Escola de Alexandria). A medicina só se tornaria uma verdadeira ciência no século XIX...

Fontes bibliográficas:

- Amato Lusitano, Centúrias de curas medicinais, vol.2, Lisboa, Universidade Nova de Lisboa/ Faculdade de Ciências Médicas, p. 102.

- Pita, João Rui, História da Farmácia, Coimbra, Minerva, , 2000, 2ª ed., p.128.
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Friday, March 17, 2006

Sobre o presente blog

Há algum tempo atrás, recordo a interessante leitura de um texto de opinião sobre as auto-biografias... lamentavelmente na minha memória já não consta o nome do autor, contudo a ideia principal do texto ainda está presente- não há maior voyeurismo do que a escrita que incide sobre a vida pessoal do autor.
Ao reflectir sobre o assunto deste ponto de vista, escrever sobre a nossa vida pode ser entendido como algo de pouco valor, tendo em conta a forte carga perjorativa que o opinador imprimiu ao acto; por outro lado, a ficção deve ser valorizada, pois só através da mesma podemos analisar as verdadeiras capacidades de um escritor.
No entanto, existirá ficção que não tenha vestígios e influências da experiência pessoal do autor? Não creio. De Eça de Queirós a Gunter Grass, existe sempre uma pitada da vida do escritor dentro da própria ficção.
Não pretendo ser um bom escritor, reconheço que não possuo capacidade nem conhecimentos para tal. Mas creio que a realidade pode ser tão deliciosa como a boa ficção, e por isso decidi falar da minha vida neste blog. Porque com a minha experiência espero conseguir ajudar muitas pessoas que se identifiquem comigo, para que não repitam os erros que me atiraram para o meio de um deserto no qual só recentemente me consegui orientar...

Tuesday, February 28, 2006

Talvez um dia...

O mundo só vai prestar
Para nele se viver
No dia em que a gente ver
Um gato maltês casar
Com uma alegre andorinha
Saindo os dois a voar
O noivo e sua noivinha
Dom Gato e Dona Andorinha.

(Escrito por Estevão da Escuna, poeta popular da Bahia; encontrei este pequeno poema na obra "O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá: Uma História de Amor", de Jorge Amado, sobre a qual escreverei um post um dia destes, e não resisti à ideia de o colocar neste blog, devem supor porquê...)

Ian Lawless (II)



Mais uma imagem irresistível de Ian Lawless... Posted by Picasa

Dedicado a Sebastião José de Carvalho e Melo, Marquês de Pombal



A inveja, a tirania, a impiedade,
a soberba, a ira, a incontinencia,
a discordia, a fereza, a displicencia,
a traição, a vingança, a falsidade.

A malicia, a avareza, a crueldade,
a cobiça, a ambição, a preferencia,
a vangloria, [a] arrogancia, a inclemencia,
a mentira, a calumnia, a iniquidade.

O odio, o homicidio, o torpe modo,
o dolo, o fanatismo, o máo exemplo,
o erro, o latrocínio, o falso apodo,

O sacrilegio no sagrado templo,
tudo enfim quanto há máo no mundo todo
no Marquez de Pombal hoje contemplo.

(Soneto glosado em oitavas de autor desconhecido, escrito na segunda metade do século XVIII). Posted by Picasa

Monday, February 27, 2006

Publicidade não enganosa...



Sem dúvida, um dos modelos masculinos mais atraentes da actualidade: Ian Lawless, 33 anos, australiano. Consegue aliar um físico e rosto cuidados e perfeitos a uma imagem sem demasiada artificialidade (reparem no corpo não depilado, algo pouco comum nos modelos actuais), o que lhe confere um delicioso charme natural... e se a isto tudo juntarmos aquele sorriso sedutor e apelativo, então pouco mais há a dizer... Posted by Picasa

Conselho

Regra sua pera quem quiser viver em paz
Ouve, vê e cala,
e viverás vida folgada.
Tua porta çerrarás,
teu vezinho louvarás,
quanto podes nam farás,
quanto sabes nam dirás,
quanto vês nam julgarás,
quanto ouves nam crerás,
se queres viver em paz.
Seis cousas sempre vê,
quando falares te mando:
de quem falas, onde e quê,
e a quem, como e quando.
Nunca fies nem perfies,
nem a outro enjuries,
nom estês muito na praça,
nem te rias de quem passa,
seja teu todo o que vestes;
a ribaldos nam doestes,
nam cavalgarás em potro,
nem ta molher gabes a outro;
nom cures de ser picam
nem travar contra rezam.
Assi lograrás tas caãs
ou tuas queixadas sãas.

ribaldos- patifes; doestes- injuries; picam- valentão; travar- censurar.

(De D. João Manuel, incluído no "Cancioneiro Geral" de Garcia de Resende, publicado pela primeira vez em 1516).

Sunday, February 26, 2006

Vagueando pelas publicações online...

Uma vez que na sua lista de comentadores figuram ilustres bastiões da velha moral e dos bons costumes como César das Neves ou Luís Delgado, surpreendeu-me encontrar no Diário de Notícias este texto, O Carnaval dos Homofóbicos...

A Avareza

Há ricos que vivem pobres
A avareza assim faz
Têm terras e dinheiro
Casa e cheio o celeiro
Mas tudo não satisfaz.

Se chove muito suspiram
Se não chove se arrepelam
Trabalham sem descansar
O trajar é trapo velho
Para bem aproveitar.

Às festas não podem ir
Para a casa não ficar só
Cheiram a porcos e burros
Higiene fica cara
Sendo ricos causam dó.

Riqueza que nada vale
Em poder do avarento
Que pensa que pouco tem
Não mata a fome a ninguém
Guardar tudo é seu intento.

Eles trabalham para outros
Que só pensam em gosar
São ricos e pobres parecem
Quando avarentos merecem
Sem a riqueza ficar.

Tendo pouco viveriam
Talvez na mesma pobreza
Tinham mais amor para dar
Mais tempo para descansar
Só lhes faltava a riqueza.

(Mariana Bandeira, poetisa popular).

Cacela



As praças forte foram conquistadas
Por seu poder e foram sitiadas
As cidades do mar pela riqueza

Porém Cacela
Foi desejada só pela beleza.


(Sophia de Mello Breyner Andersen) Posted by Picasa